Conheça a história de Kauany: Uma trans que quase virou padre.

Em uma entrevista, Kauany Oliveira nos contou sua história: “Me recordo que desde a minha mais remota infância eu já me via como menina.

Enquanto as crianças na época ansiavam pela hora da tv globinho para assistir seus desenhos favoritos, eu ansiava pela hora em que minha mãe sairia de casa para poder usar suas roupas e sapatos escondidos. O sofrimento por ser uma transexual era constante. Dentro e fora de casa, pois em nenhum lugar eu era aceita, por isso eu acabava sendo muito retraída, tendo que me esconder dentro de uma caixa interna para não sofrer represálias, pois eu não entendia o que tinha de errado comigo. Porque as pessoas riam, e até mesmo no colégio me batiam simplesmente por eu ser quem eu era. De tanto escutar xingamentos, aos quais prefiro não citar aqui, mas que todos podem imaginar quais são, fui pesquisar no dicionário o que significava um destes xingamentos que eu tanto escutava, e percebi então que o ódio que eu despertava nas pessoas era por eu gostar de meninos. Esse era o meu crime, era por isso que eu sofria um verdadeiro terrorismo dentro e fora de casa.

Quando eu tinha lá pelos 11 anos, minha mãe me surpreendeu em seu quarto usando suas roupas. Levei uma surra que lembro até hoje, muito maior do que as que eu já levava habitualmente, com o objetivo de me doutrinar e parar de agir como menina. Após este ocorrido, por um momento eu pensei que tudo estaria bem, pois o meu ‘’segredo’’ estaria revelado. Leigo engano. Ai que começaram as torturas psicológicas, ela me levou em diversas igrejas evangélicas, onde tentaram me exorcizar (literalmente)como não obtiveram êxito fomos para uma igreja católica, onde eles foram menos cruéis comigo no começo, e por eu sentir um relance de afeto (afeto esse que nunca tive em minha vida), eu quis com toda a força da minha alma ‘’virar homem’’, com a esperança de que assim eu seria amada. Entrei para o coral da igreja, pois tinha uma voz considerada boa, e tentei assim me enquadrar no que as pessoas diziam ser o correto.

Após alguns anos, quando eu já tinha uns 14 anos, por pressão da minha família, eu estava começando a estudar para virar padre. Até que eu contei para a responsável do coral, que também era minha madrinha de crisma, o desespero em que me encontrava por não conseguir deixar de gostar de meninos, e por não suportar me ver na figura masculina a qual me encontrava. E que não saberia se seguir o caminho da Igreja seria o ideal para mim. O apoio que eu esperava, na realidade virou uma grande repulsa por parte de todos que eu considerava serem meus amigos lá dentro. Pelo simples fato de eu não ser o que eles impunham  ser como correto fui não apenas expulsa do curso que já estava fazendo, que era requerido antes de entrar no monastério, mas também expulsa do coral da igreja, e ‘’convidada’’ a não aparecer mais por lá. Não preciso nem dizer que o escândalo na cidade foi imenso. Virei a notícia da cidade, pois morando em uma cidade do interior do Rio Grande do Sul, um assunto desses era um verdadeiro escândalo.

Não só a igreja e toda a cidade se voltaram contra mim, mas na minha casa minha família também o fez. Minha mãe em uma última tentativa,  me levou a psicólogos para tentarem me converter. Ao ouvir dos mesmos que era normal eu gostar de meninos ela ficou inconformada, mas depois daí ela não tinha mais o que fazer, a única coisa que ela me fez prometer foi que eu não virasse travesti. Promessa essa que seria impossível de eu cumprir.

Já com 15 anos não suportando mais a figura que eu mirava diante do espelho eu revelei a minha mãe o que, no fundo, ela já sabia, mas não queria acreditar. Que eu era sim, uma mulher presa em um corpo de homem e que nessa prisão eu não poderia mais viver, sendo assim eu iria começar a minha transição.

A reação da minha mãe foi pior do que eu esperava, ela falou que jamais me aceitaria vestida de mulher, e que se eu quisesse seguir por este caminho que deveria sair de sua casa naquele exato momento.

Sem escolha não peguei quase nada dos meus pertences, pois prometi a mim mesma que aquele seria o último dia que usaria roupas de homem. Não tive outra escolha senão seguir o único caminho possível para mim naquele momento: a prostituição.

Meu primeiro cliente, um caminhoneiro, foi também o primeiro homem com quem eu transei. Eu já havia beijado dois meninos na boca, mas nada além disso. Depois dai eu fui pulando de cidade em cidade, buscando uma melhorar de vida, até que com a ajuda de uma amiga que já morava no Exterior,  eu consegui ir para a Europa trabalhar, o que era o sonho de toda a travesti que trabalhava com prostituição.

Já moro há 10 anos na Europa e não pretendo voltar ao Brasil tão cedo. Aqui a qualidade de vida é muito melhor, não só pelo conforto e qualidade de vida ser melhor que no Brasil, mas acima de tudo por aqui eu me  sentir segura, aqui eu sinto que eu não corro risco de vida por ser quem eu sou.

Hoje minha relação com minha mãe é muito melhor, eu consegui perdoá-la, por entender que sua reação era resultado de sua ignorância e falta de conhecimento. Não posso deixar de negar que as cicatrizes continuam, penso que continuarão para sempre. Como toda cicatriz que não está 100% curada, ainda dói às vezes, e guardo comigo sequelas psicológicas, que tento tratar fazendo terapia semanal e buscando me auto-conhecer.

Olhando para trás, analisando minha história, hoje, já com 29 anos, me vejo como uma vencedora, usei todas as pedras que jogaram contra mim, não para construir um castelo, mas para criar este alicerce que tenho hoje, alicerce este  que não me foi dado em minha infância e nem adolescência, e tive que buscar por conta própria”. Desabafou Kauany Oliveira

 

Essa história foi contada pela própria e foi totalmente igual a sua realidade. Kauany também nos revelou que foi apenas um resumo do que ela passou. Infelizmente essa é a realidade da maioria das transexuais e nem sempre tem um final de superação, umas não aguentam a pressão, tem que ser muito forte e determinada para conseguir passar por cima de tudo isso.

 

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