Através de literatura ecumenica e plural
Arthur Wentz e Silva
“Os homens sempre tiveram medo das mulheres que voam, seja nas vassouras ou nas ações e pensamentos”. É o que pensam Reinaldo, mais conhecido por Mestre Bueno do Barão e sua mãe Iêda, em texto publicado no portal online da revista Xapuri Socioambiental.
O que já não é segredo, é que para além de um magista e espiritualista, o Mestre Bueno do Barão é também escritor. Destas escritas saem conhecimentos gigantes, através de uma linguagem simples e até mesmo poética. O objetivo principal é resgatar e reapresentar a mitologia feminina e sua importância histórica, sendo estas representações fundamentais para o entendimento do ser humano e de suas fragilidades.

Ecumênico, mencionou recentemente em sua série de vídeos curtos chamados de “Pensamentos em Cápsulas” que as religiões não deveriam estar condenando umas às outras: “não devemos nos limitar a isso, enquanto seres em evolução” é o que diz o Mestre. Assume, portanto, uma linguagem de pluralidade religiosa e cultural. Isso também é muito presente em sua escrita, trabalhando com Sagrados e elementos femininos de diversas manifestações religiosas e culturais.
Assim, Oxum, Iemanjá, Lilith, Ticê e outros diversos nomes ganham espaço nas publicações de Reinaldo, que recebe a participação conjunta de sua mãe, a escritora cerratense Iêda Vilas-Bôas. Dentro de várias destas publicações é possível perceber o tom narrativo- mitológico e uma reflexão mística e filosófica sobre a condição humana.
O poder das mulheres e suas mitologias foram por anos sucumbidos pela hegemonia patriarcal, na tentativa de colocá-las fora do cenário, impedidas de terem suas histórias apresentadas e contadas. A resistência enorme e a urgência de reparação histórica, as trouxeram de volta e agora elas prometem não voltar mais para os baús, permanecendo em escritos, mentes e corajosos corações.
Em texto recente, sobre a orixá Iemanjá, Iêda e Reinaldo saúdam não só sua importância, mas também seu poder: “Por todo seu poder feminino, saudamos a Rainha do Mar! Odò Yiá, minha Mãe! Salve, Odociaba!”, ao que chama a atenção do leitor a coragem e a beleza da protagonista. Esse poder oriundo de uma divindade feminina simboliza o ressurgimento do feminino não mais como puro e passivo, mas sim como protagonista e corajoso.
Outros debates também perpassam pela escrita de Reinaldo e Iêda, é o exemplo a mitologia alinhada a questões ambientais e humanitárias. É o caso de Ticê: “Essa crença é pessoal e intransferível, o que importa mesmo, crendo ou não, é que o homem abra os olhos em tempo e tome para si o dever e respeito de zelar, cuidar e amar a natureza”.
Em uma literatura de contrastes, encontra-se também figuras emblemáticas que tem retornado ao cerne cultural, ressurgida e ressignificada pelo movimento feminista, Lilith ganha espaço nesta literatura, segundo Iêda e Mestre Bueno do Barão, como: “um símbolo de luta contra o patriarcado e sua imagem de subversão feminina passa a ter muita influência no universo feminino”.

Nessa roupagem outros dois assuntos ganham espaço na abordagem: a Maternidade e um estudo sobre Gênero.
Questões muito presentes em Isis, “Esse poder gestacional de “Mãe” traz a memória ancestral e dá a todos a possibilidade de vivenciar essa energia criadora. Esse poder de gestação transcende a questão do gênero, pois no mundo espiritual, masculino e feminino não significam ser homem ou mulher. Esotericamente todos nós possuímos energias masculinas (yang) e femininas (yin) e, no mundo físico, nos reconhecemos dentro desses polos, geralmente dentro de um deles, mas também dentro dos dois, ou um gênero pode carregar a energia de polo diferente” e Mãe Durga “Serena, como mãe, com a sua fonte irradiante de força e energia aberta, emanando força que protege. Afinal: tudo tem de voltar para onde veio. Durga vence as guerras, contra os piores demônios, montada em seu tigre, ostentando sua confiança em seu próprio eu. Durga é muito popular entre os hindus, simboliza a Divina Mãe, e é um dos pilares principais de sustentação da fé hinduísta”.
Não só a maternidade, mas também a força destas personagens guerreiras ganham espaço na narrativa de Bueno e Vilas-Bôas, que é o caso da menção à deusa Obá, valente e corajosa: “É a energia flecheira de mulher, caçadora, valente e guerreira, escolhe ser cultuada nas cores vermelho e branco, usa escudo, arco e flecha (no Candomblé chamado de Ofá) e é a dona da energia de todas as armas”.
Estas leituras estão disponíveis no portal online da revista Xapuri Socioambiental, em https://www.xapuri.info/. Para encontrar e conhecer mais do trabalho de Bueno do Barão, basta acessar seu Instagram em @mestrebuenodobarao.








